Pr. David Silva

Pr. David Silva

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O CRENTE PODE FAZER USO DE BEBIDA ALCOÓLICA?

Segundo a Bíblia, Jesus transformou a água em vinho. Ele também tomou vinho na ceia com seus discípulos. Também aprendemos, dentre as muitas simbologias existentes na Palavra de Deus que o vinho é o símbolo da alegria (Sl 104:15; Ec 10:19). Tantas alusões ao vinho fazem com que muitos crentes não vejam problema algum em beber um “vinhozinho” de vez em quando, afinal, “a bíblia condena é o embebedar-se”. Assim, “um pouquinho só não é pecado, pecado é ficar bêbado!” – dizem muitos.


Mas será que isso é verdade? Será que essa afirmação é realmente bíblica?
De uma forma bem sumária, vamos procurar entender o que realmente Deus nos fala em sua Palavra sobre o crente e o álcool:


Em primeiro lugar, vamos fazer um retorno aos originais bíblicos: O "vinho" na Bíblia é o produto da uva. Frequentemente se refere a uma bebida alcoólica semelhante a tais bebidas hoje. Mas, a palavra "vinho" é também usada na Bíblia para descrever o produto não fermentado da uva -- o que nós chamamos suco de uva.


O tipo de vinho usado pelos judeus antigos não era idêntico ao de hoje. Tratava-se de um suco de uva recém-espremido, obtido de uma uva do tipo passas ou do xarope da uva, misturado com água. A proporção da água diluída no vinho, fermentado ou não, podia ser até de 20 por 1. Era considerado indelicado servir vinho fermentado sem diluí-lo em água, o qual não poderia, nem mesmo, ser abençoado pelos rabinos.


Além disso, a fermentação do vinho era dado de forma natural, uma vez que não havia naquela época as técnicas que existem hoje de se acrescentar álcool às bebidas. Ou seja, o vinho que temos hoje não é o mesmo que o daquela época, sendo o de hoje muito mais forte, embora ambos – o vinho atual e o vinho fermentado antigo – sejam embriagantes.


De volta aos originais:

Três vocábulos distintos são empregados no AT para designar três espécies de vinho:


1º) Yayin – Gênesis. 9:21, Nee 56:18. É o mais usado, porque aparece nada menos de 140 vezes. É um termo genérico empregado indistintamente, sem considerar se o vinho é fermentado ou não.


2º) Tirôsh - Deut. 12:17. Empregado 38 vezes. Ao contrário da palavra anterior, esta se refere sempre ao vinho não fermentado, ou seja, ao puro suco da uva. Algumas vezes é traduzido como vinho novo ou "mosto".


3º) Shekar – I Sm 1:15, Nm 6:3. Tem uma conotação negativa e normalmente é traduzido por bebida forte. Os escritores do AT a empregam 23 vezes. Prov. 31:6 – "Dai bebida forte (shekar) aos que perecem, e vinho (shekar) aos amargurados de espírito”. Refere-se a bebidas fermentadas feitas de outras frutas, como a romã, maçã ou tâmara.

É interessante saber que na Septuaginta (tradução do hebraico para o grego, feita por setenta sábios judeus) a palavra oinos foi empregada para traduzir as hebraicas yayin e Tirôsh, mas nunca para shekar ou bebida forte.


As referências ao vinho no NT são mais escassas do que as encontradas no AT. Seus escritores também empregaram três vocábulos gregos, que podem ser traduzidos para a nossa língua por vinho: oinos; sikera; gléukos. Destas três, a mais usada é oinos (aparece 36 vezes), tendo o mesmo sentido de Yayin no hebraico, e que na Septuaginta, como já vimos, traduz também o hebraico Tirôsh. A palavra sikera aparece apenas uma vez em Luc. 1:15 – "João Batista não bebia vinho (oinos) nem bebida forte (sikera)." De modo idêntico o vocábulo gléukos só foi usado uma vez em Atos 2:13. Outros zombando diziam: "Estão cheios de mosto (gléukos)."


Deste modo, temos em hebraico diferentes palavras com o mesmo referente em português, e uma mesma palavra em grego para designar diferentes coisas. Então, da mesma maneira que nossa palavra "bebida" tem que ser entendida no contexto (poderia ser água, refrigerante, suco, cerveja ou vodca, dependendo do contexto), o sentido de "vinho" nas Escrituras tem que ser determinado pelo contexto.

Vale aqui uma pequena digressão para uma breve aula teórica sobre tradução: a tarefa de traduzir nem sempre é uma tarefa tão simples como se pode parecer. As mais de 6000 línguas existentes no mundo não são arranjadas perfeitamente entre si. Elas se diferem em muitos aspectos e são, de certo modo, um reflexo da cultura de cada povo. Nem sempre temos para cada palavra em uma língua uma palavra correspondente na outra, que tenha o mesmo exato significado.


Vejamos um exemplo bem simples. Em português temos a palavra céu, que significa tanto o lugar onde estão as nuvens quanto o lugar de habitação de Deus, dos anjos, das pessoas que morrem salvas, etc. Daí, dizermos que os anjos são seres celestes, ou celestiais. Temos também a palavra paraíso, mas é menos usada. Normalmente dizemos em enterros: “Ela descansou e agora está no céu, nos braços do Pai!”.


Entretanto, em inglês há duas palavras bem distintas para céu: Sky (Céu de nuvens) e heaven (paraíso) e uma nunca é usada no lugar da outra. Assim a frase (sem contexto): “Meu pai está no céu” é ambígua em português, já que ele pode estar morto, mas também pode estar viajando de avião. Já em inglês, essa ambigüidade é desfeita, pois eu digo: “My father is at the sky” ou “My father is in the heaven”.


Deste modo, se um tradutor inglês precisar passar a frase “Meu pai está no céu” para sua língua, ele terá um problema (a não ser que esta venha dentro de um contexto). Esse é um simples exemplo, mas existem outros mais complicados que dificultam em muito a vida de um tradutor.


E o vinho que JESUS bebeu na santa ceia?

Será que dessa vez o vinho era fermentado? Novamente analisemos os fatos: em primeiro lugar, nas passagens que relatam a Ceia do Senhor, não encontramos a palavra oinos, mas a expressão “fruto da vide” (Mt 26:29, Mc 14:25, Lc 22:18), que se refere ao suco de uvas natural, uma vez que a vide, obviamente, não produz vinho fermentado.


Em segundo lugar, nenhum agente fermentador (seor) deveria ser usado nos elementos da ceia (Ex. 12:19-20; 13:7). O fermento, ou Seor, era obtido da espuma espessa da superfície do vinho quando em fermentação. Além disso, todo hametz (qualquer coisa fermentada) era proibido durante a páscoa. Além disso, a fermentação simboliza a corrupção e o pecado (Mt 16:6,12; I Co 5:7-8). Será que a Santa Ceia poderia ser celebrada com o símbolo do pecado? “O valor de um símbolo se determina pela sua capacidade de conceituar a realidade espiritual”.


Assim se o pão representava o corpo de Cristo e deveria ser asmo, ou seja, não fermentado, o fruto da vide, que representava o sangue de Cristo, também deveria ser não-fermentado, uma vez que o corpo e o sangue de Cristo não apresentaram corrupção.


A restrição do uso de bebidas alcóolicas não se limita aos exemplos de Jesus (o que, por si só, já seriam mais que suficientes). Mas se estende ao longo do NT (1 Coríntios 6:9-10, Gálatas 5:19-21; 1 Pedro 4:3-4; Romanos 14:21).


Muitos crentes que querem beber álcool, lançam mão de I Tim. 3:8 e 5:23. Entretanto, examinando a palavra, descobriremos logo que o jovem pregador Timóteo, que conhecia as Sagradas Escrituras desde a sua infância, era um consciencioso e rigoroso abstêmio.


Quanto ao texto de Tm 3:8, Muitos dizem que o errado é se dar a muito vinho, ou seja, pouco vinho não seria o problema. Mas analisemos o texto: Embora este conselho de Paulo seja difícil de ser explicado, se pensarmos bem sobre ele, e se o pesquisarmos em fontes sadias, concluiremos o seguinte: o termo grego usado é oinos:

- Se Paulo aqui se refere ao vinho fermentado, ele está em contradição com suas próprias declarações quanto ao cuidado do corpo (I Cor. 6:19 e 10: 31) e em oposição à orientação geral da Bíblia no tocante a bebidas intoxicantes (Prov. 20:1; 23:29-32; João 2:9).

- Se sua referência era ao uso do suco de uva não havia necessidade desta advertência.

Concluímos assim que, neste conselho, Paulo adverte àqueles que exercem liderança dentro da comunidade cristã para não incorrerem neste vício, porque este os incapacitaria para o correto desempenho de sua tarefa.


Analisando o texto de Tm 5:23, percebemos que o apóstolo Paulo lhe aconselhou o uso de um pouco de vinho, como remédio, por causa dessas suas enfermidades.


Notemos, porém, que o termo oinos, usado neste texto, sendo empregado, às vezes, no sentido de vinho doce, não diz com clareza se era vinho novo e doce ou fermentado, o que Timóteo devia usar; mas mesmo que fosse vinho fermentado, existe muita diferença entre o uso de um pouco, no caso de doença, e o beber vinho fermentado de preferência ao novo e doce, sob uma infinidade de pretextos fúteis, desprezando assim a Palavra de Deus, que, no Velho Testamento, proíbe, em 134 textos diferentes, o uso do vinho fermentado, e, no Novo Testamento, coloca na categoria de libertinos, idólatras, maldizentes, adúlteros, ladrões e assassinos, os bebedores de vinho dessa qualidade (I Cor. 6:9 e 10; Gál. 5:19-21; etc., etc.), deixando bem claro que os bêbados não herdarão o reino de Deus." – do folheto "vinho" de Walter G. Borchers págs. 9 e 10.



Alguns comentaristas crêem que Paulo aqui defende o uso moderado de vinho fermentado para propósito medicinais. Chamam a atenção para o fato de que aquele vinho assim tem sido usado através dos séculos.

Outros sustentam que Paulo se refere ao suco de uvas não fermentado, arrazoando que ele não daria conselho inconsistente com o resto das Escrituras, que advertem contra o uso de bebidas intoxicantes (veja Prov. 20: 1; 23: 29-32)." SDABC vol. VII, pág. 314.


E ainda que admitamos que Paulo aqui aconselha o uso de vinho fermentado, o estudo da passagem de 1 Tim. 5: 23 nos leva à conclusão de que neste caso Paulo está tratando de um caso isolado e especial – um problema de doença. Em suas demais epístolas ele sempre defendeu total abstinência do vinho, como nos comprovam Rom. 14:21 – ". . . é bom não beber vinho..." Efésios 5:18 "... Não vos embriagueis com vinho. . ." Deste modo, não é justo alguém apoiar-se nesta passagem para defender o uso do vinho com álcool.


Outro caso encontrado no NT é o da igreja em Corinto que estava, por falta de conhecimento, cometendo alguns sacrilégios. Eles estavam usando vinho fermentado na Santa Ceia e isso não agradou nem a Deus, nem ao apóstolo (ICor.11:21). Paulo disse que isso não era digno de nenhum louvor (ICor.11:17), mas sim de grande vergonha. Isso foi chamado de comer e beber indignamente ( ICor.11:29). Foi causa de mortes antes do tempo de alguns cristãos (ICor.11:30).
Outra passagem a ser citada é a declaração de Paulo em Ef.5:18, que mostra que a plenitude do Espírito depende de nossa vida de santificação. Parece que os irmãos de Éfeso achavam normal beber e ser cristãos, mas a prova que isso é impossível é bradada por Paulo: “não vos embriagueis”. O Espírito não fica onde há sujeiras e embriaguez. Não há como se embriagar de Vinho e ser cheio do Espírito ao mesmo tempo.


Além de tudo isso, apelemos também ao nosso bom senso: o servo de Cristo deve sempre analisar o efeito de seus atos sobre o próximo: "É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra cousa com que teu irmão venha a tropeçar" (Rom. 14:21). Mesmo que o cristão pudesse beber moderadamente, de qualquer modo esse texto ainda o estaria proibindo na maioria dos casos. A bebida alcoólica leva tantos cristãos a cair, que aquele que tenta ajudar o seu irmão a não tropeçar certamente não lhe dará o exemplo, bebendo diante dele.


Ainda a Palavra fala que devemos evitar toda aparência do mal. Ora, se o crente é popularmente conhecido, entre entras coisas, como uma pessoa que não bebe, um crente que se mostra bebendo está, obviamente, dando mal testemunho, ainda que esteja bebendo apenas um gole, pois, as pessoas que estiverem ao seu redor assistindo à cena não poderão saber se é ele está realmente bebendo apenas um gole ou não: beber, ainda que apenas um gole, é uma aparência de mal.


Por Ana Maria Tavares (Prof. da EBD de Juvenis)


Fonte: http://www.mocidadedejesus.com.br/index.php?centro=noticia&idnoticia=500

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